“A mudança levará algum tempo, mas acredito na capacidade do brasileiro de se adaptar”

O professor Doutor da Usp de Lorena, Adilson Gonçalves, fala sobre seu projeto realizado com uma aluna que pode causar bom impacto ambiental e financeiro. Adilson estuda solução para o aproveitamento de resíduos sólidos (no caso, filmes plásticos) na fabricação de biocompósitos (material feito de plástico misturado a fibra de bagaço de cana). O professor explica a pesquisa e, também, da relação do brasileiro com resíduos sólidos (plásticos), que vem mudando aos poucos, como com a proibição das sacolinhas plásticas nos supermercados.
Por Ana Lis Soares



O estudo de vocês tenta descobrir formas de se diminuir o impacto ambiental causado pelo descarte de filmes plásticos em meio aos resíduos sólidos municipais. Por que se focaram neste material?
Essa é a fração mais negligenciada, mais desprezada. Como é de pequena massa (cerca de 5-6% do total), acaba não interessando aos catadores nem às empresas de reciclagem, pois a unidade de negócio é por massa. Os filmes plásticos vão desde as sacolinhas que se usam (ou usavam) em supermercados, os sacos plásticos nos quais são colocados alimentos secos (macarrão, feijão, arroz e quase todos os grãos), biscoitos etc. E tudo isso tem um impacto enorme no ambiente.

Conte-me um pouco do projeto. Como surgiu a ideia da pesquisa?
Minha aluna de Iniciação Científica, Cibele Rosa Oliveira, que também é técnica da EEL-USP, quis fazer um projeto mais aplicado, voltado a problemas locais. Como fui Presidente do Conselho de Meio Ambiente Municipal de Lorena por quatro anos, propus a ela um projeto que conciliasse a questão social, desafiando a falta de informações adequadas sobre a composição do lixo coletado em Lorena. Daí veio a ideia de separar apenas a parte desprezada do lixo (os filmes plásticos) e fabricar compósitos com eles misturados com as fibras de bagaço de cana.

Estamos assistindo no Brasil uma mudança de hábito das “sacolinhas de supermercado” com a lei imposta em vários estados do país. A pesquisa e projeto de vocês vem ao encontro dessa mesma problemática: como solucionar o problema do uso de resíduos sólidos não biodegradáveis? Qual seria o impacto de seu projeto em Lorena?
Restringindo-se ao objeto de nossa pesquisa, que foram os filmes plásticos descartados, calculamos que 5-6% do total do lixo é constituído por esse material, com um valor de mercado de R$100 mil (numa cidade de 82 mil habitantes, como Lorena, onde o estudo foi realizado). Além disso, o município economizaria em 5% do que paga para enterrar seu lixo no aterro controlado mais próximo, cerca de 20 km daqui.

Como o senhor definiria o uso do plástico no Brasil? Como a população pode se adaptar para o consumo mais apropriado?
Em relação às sacolinhas plásticas há um problema cultural que precisa ser combatido: muitos usam as sacolas para expor o que compraram. O brasileiro tem receio de que seja abordado por suspeita de furto. Sacolas de pano é coisa de “pobre”, “caipira”. O argumento de que as sacolinhas são usadas para pôr o lixo não procede, pois já verificamos que a quantidade de sacolas levadas é muito maior da que é necessária para acondicionar o lixo. A mudança levará algum tempo, mas acredito na capacidade do brasileiro de se adaptar e entender que precisa fazer seu papel. Quando houve o apagão e o racionamento de energia, por exemplo, ele fez isso.