“Sem essa união de forças não vejo como atingirmos qualquer meta”


O lixo é responsabilidade da administração pública. Mas, a participação de cada brasileiro se faz cada vez mais necessária. Esta é a opinião do professor Dr. Sérgio Arnosti Júnior, coordenador do Curso de Engenharia Ambiental da EEP/FUMEP, em entrevista exclusiva para nosso site.
Ana Lis Soares



Como o senhor enxerga a questão dos lixões e como acha que a administração pública e os cidadãos podem trabalhar para algo mais sustentável e limpo?
A situação hoje se tornou alarmante. A administração pública tenta minimizar o problema apenas afastando o resíduo da população, mesmo que a destinação seja inadequada. Para mim, existe uma grande falta de planejamento e isto faz com que os recursos sejam mal aplicados. Não encontramos casos de projetos bem-sucedidos de educação ambiental, em que realmente exista um trabalho de conscientização das pessoas. A lei ressalta a importância da participação dos diferentes atores, cidadão, administração pública, empresários na administração e solução do problema. Sem essa união de forças não vejo como atingirmos qualquer meta mesmo que especificamente na área de resíduos sólidos.

Há uma forma “melhor” de gerir tais resíduos? O que é esperado com o PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos)?
Infelizmente, quando consideramos a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e o aproveitamento energético de todo o resíduo coletado no Brasil apenas entre 10 e 15% tem alguma destas destinações. Se considerarmos o total de resíduos gerados, o índice pode ficar em torno de 2%. Então, quando falamos em disposição final no Brasil, ainda estamos falando em disposição em aterros ou lixões. Então se espera que o Plano Nacional de Resíduos Sólidos viabilize ações que resultem na redução da geração até na garantia de que todo o rejeito seja destinado adequadamente.

Há hoje nas universidades estudos e pesquisas voltadas para este tipo de problema urbano?
As universidades têm um papel muito importante não só na formação técnica/acadêmica de pessoas, mas também na formação de opinião. Quando pensamos em resíduos sólidos estamos lidando com uma variedade muito grande de materiais que vai desde restos de alimentos até resíduos extremamente complexos gerados em processos industriais. Teríamos que listar aqui pesquisas em todas essas áreas do conhecimento que de alguma forma contribuem para uma maneira mais sustentável de se viver. O que eu procuro abordar em sala de aula é o problema sobre os diferentes aspectos envolvidos nesta problemática. Não existe coleta seletiva sem educação, sem apoio às cooperativas, não existe comprometimento da população enquanto as prioridades de saneamento básico e sociais não estiverem equacionadas.

Em sua opinião, qual mudança é mais urgente na gestão, no encaminhamento dos resíduos sólidos nas áreas urbanas?
A meu ver é necessária uma mudança de concepção. Na área de resíduos estamos atrasados décadas nesses termos. Desde a década de 90, quando as normas de qualidade se voltaram também para a qualidade ambiental, preconiza-se que os problemas ambientais devem ser tratados com ações preventivas é não em ações corretivas, fazendo com que os custos sejam minimizados e a melhoria seja contínua. As grandes corporações já trabalham dessa forma e talvez um modelo similar devesse ser seguido pela administração pública.